sábado, 16 de outubro de 2010

Sagrado ofício

Escrever é meu dogma. Sempre foi. Escrevo para me exorcizar. Fazer um texto é meu altar. As palavras são meus santos, que eu coloco ordenadamente no lugar. Rezo para cada uma delas. Cada qual tem seus caprichos, não posso trocá-las umas pelas outras. São Miguel não casa ninguém. Santo Antônio não tinha cachorro. Não são todos iguais. Assim como elas.
Escrever é exercício de fé. Cada palavra exige sua própria oração.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Você é fraca

Você tem medo e por isso foge. Foge agora para não ter que fugir de todos os pensamentos que invadirão sua cabeça depois. Foge para não ter que explicar para ninguém o porque do seu afastamento. Foge de mim porque acha que daqui a pouco estará fugindo de você e teme não saber achar o caminho de volta.
Você tem medo e por isso termina. Termina com medo de começar. Termina com medo de se envolver. Tem medo de tropeçar com a linha da vida. Tem medo que a linha da sua vida dê nó em outra e você não consiga mais desatar.
Você tem medo de pensar em mim mais do que em você. Tem medo de ligar, todo o dia, para perguntar obviedades. Tem medo de não conseguir estudar. Tem medo de não conseguir trabalhar. Tem medo de esquecer sua família. Tem medo de só pensar em mim.
Tem medo de perder a independência. Tem medo de perder a solidão. Tem medo de perder quase tudo.
 Luta contra o amor, com medo de se prender. Mais do que isso. Tem medo de não se soltar nunca mais.
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Medo de interromper o que recém iniciou, de começar o que terminou. Medo de faltar as aulas e mentir como foram. Medo do aniversário sem ele por perto, dos bares e das baladas sem ele por perto, do convívio sem alguém para se mostrar. Medo de enlouquecer sozinha. Não há nada mais triste do que enlouquecer sozinha. Você tem medo de já estar apaixonada. (Depois que escrevi, percebi-me fortemente inspirado pelo meu amigo Fabricio Carpinejar)

sábado, 9 de outubro de 2010

Epílogo da tentação

Ela o viu como em outras épocas. Ele a olhou, como sempre. Mas não era qualquer dia. Eram dois anos depois.
Ele estava o mesmo baú, com tudo que já era seu guardado dentro. Ela era o mesmo livro, mas com outra história. Quase nada era igual. Ele via que alguma coisa que conheceu ainda existia ali, mas era tão pouco e insuficiente que nem sabia dizer o quê. Era livro velho com história nova. Era mudança que veio sem se esperar. Ele, o baú, a via admirado. Ela, o livro velho, com a capa cheirando a nova, só desfilava pela estante. E então ele percebeu que o livro só era velho em sua cabeça. Ela estava nova. Seus cantos redesenhados, as dobras das folhas já nem existiam mais. Era a mesma, só que diferente. Diferentemente interessante.
Ele não hesitou. Pegou o livro e de súbito começou a ler. Quanto mais lia, mais se surpreendia e mais queria. Quem haveria reescrito? Não importa. O que importa é que ele gostava. Estava bom e ele queria mais. E mais. E mais.
Sem parar, com ela nas mãos, leu dos pés a cabeça. Cada linha era um mundo que ele ia descobrindo frase a frase. Cada final lhe convidava pro início.  Epílogo da tentação. 
 Ele nunca mais parou.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Gênesis

No princípio era ela. E todas as coisas dela vieram.
A água que lhe escorria pela face enchia o mundo. A ponta de seus dedos esculpiam os relevos, as rochas e as relvas. Seu sopro fazia crescer tudo que tinha vida. Não havia palavra que não saísse de sua boca.
Na medida que ria, dava brilho ao sol. No oposto, era a lua que se iluminava. Porque tudo nela era claro. Era de luz até sua escuridão.

sábado, 11 de setembro de 2010

Carta para o quase amor

Escrevo esta carta para registrar todos os encontros que nunca tivemos. Escrevo para me lembrar de todas as luas que não pudemos olhar. Meu quase amor, que você não se esqueça de todos os convites que eu não lhe fiz e que não esqueça também as desculpas que nunca precisou dar.
Escrevo pra eternizar as noites que planejamos ficar acordados sem nos importar com quantos dias seriam precisos para compensá-las. Ah! Escrevo por todas as sessões de cinema que não perdemos, por todos os teatros que não fomos e por todos os dramas que não choramos. Escrevo também pelos filmes de terror que você não chegou mais perto. Aliás, escrevo por todas as vezes que você não chegou mais perto, seja por falta minha ou tua.
Não posso esquecer de citar todas as brigas que não pudemos ter tido e todas as voltas que só as essas brigas poderiam proporcionar. Escrevo por todas as mãos que não se entrelaçaram. Escrevo por todas as vezes que os olhares não se perderam dentro das tantas vidas que vivem neles. Quantas vidas cabem no seu olhar? Ainda não descobri, mas escrevo por todas elas também.
Escrevo pelo sol que não pôde iluminar com mais força nossa pele e por todo pássaro que não poderá fazer coral para nossa passagem. Escrevo por todos os caminhos que não poderão sentir os meus passos tão desalinhados ao lado dos teus.
Escrevo a você, que chamo de quase para não afirmar a ausência, sem pudores. Escrevo para deixar gravado tudo que não pudemos viver, por falta minha ou tua, isso já não importa.
Deixo registrado até o que dói em mim. Mas que não seja só. Quando você voltar, já não serei mais o mesmo. Então além de todas essas coisas, escrevo também pelo amor que você não teve. E talvez, nunca terá.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Isso também passa

É tudo sem importância.
­As coisas todas!
Me entristeço
Pensando nisso

­Quase tudo
­Não vale o esforço
­É pequeno demais
Para a vida

­Não vale a raiva
­Nem o rancor
­Não vale a mágoa
­Nem a dor

O que vale disso tudo
E sobra mesmo no final
É o amor que se tem
muito mais que o carnal

sábado, 4 de setembro de 2010

Agora não mais

Um dia fui quem você procurou.
O primeiro da sua lista de contato,
Aquele que te vinha a cabeça antes de qualquer coisa.

Um dia fui quem você sonhou.
O cara que chega de cima do cavalo branco.
Aquele com que cada beijo é sempre o primeiro.

Um dia fui o que você quis.
O seu ator preferido.
A sua canção preferida.
O seu preferidamente melhor.

Um dia fui e hoje sou lembrança,
Sou pergaminho na história da tua vida.
Tudo que eu fui não tem mais importância,
Você nem lembra mais de mim.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Tudo que sai

Tudo que sai de mim te confunde
O que digo é o laço que tropeça tuas pernas
Tudo que sai de mim te confunde
O que faço é o nó preso na tua garganta
Tudo que sai de mim te confunde
Mas tudo que vem de você me esclarece
Como o céu a quem cabe admirar estrelas

Quero te estudar para sempre
Me graduar em você, quem sabe até me pós-doutorar
Entender como funciona
A matemática do seu pensamento
Analisar as variações químicas do seu humor
A geografia do seu corpo
A história da sua vida

Tudo que sai de mim te confunde
Mas é sempre tão claro o que deixas de ti
Que me entrego inteiro a esse problema
só pra ter o prazer de buscar todo dia
o X da sua questão

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Vestida

Acordou como em qualquer outro dia. Tomou banho, fez um suco pro café-da-manhã e comeu uma maçã antes de sair. Não sem antes escovar os dentes e conferir no espelho se a blusa que ela esquecera de passar estava aparecendo tão amarrotada como ela supunha. Trancou a porta. Voltou pra conferir. A essa altura já nem pensava mais nisso, tropeçava as pernas para descer os degraus da portaria e corria para chegar ao ponto de ônibus. Estava atrasada, corria para tentar fazer o relógio andar para trás.
Deu sinal para o primeiro ônibus que passou. Qualquer um ia para onde ela ia. Não importava como, importava chegar. Ia almoçar e já pensava no jantar. Ia pro Natal fazendo contagem regressiva para a virada do ano. Ela era dessas que tira o esmalte antes dele sair sozinho. Antecipava tudo. Adiantava tudo. Primeiro colhia o fruto, depois plantava a semente.
O ônibus estava cheio. O povo sentado fazia cerimônia para o povo de pé. Ninguém abria mão de nada. Seguiam firme, todos, olhando reto. Menos o rapaz da penúltima fileira. Ele não podia endurecer o pescoço. Seu olhar se curvava para ver aquela mulher. Não tinha como não reparar. Ela já era outra. Aquela que chegou inteira já não estava nem metade. Encolhida no banco, ela não parecia bem.
Foi até a última parada para descobrir o ponto final daquela história. Todos desceram e ele a esperou. Ela não levantava. Agora era caso de vida ou morte. Ele levantou e foi até ela. Seus passos não a alcançavam. A mulher de pele quente, de passo forte, que subiu com toda pressa que há nessa vida não estava mais ali. Ele via o que sobrou dela.
Acordou como em qualquer outro dia. Escovou os dentes e botou a roupa amarrotada para não perder tempo. Sua amiga já a esperava para jantar. O rapaz percebeu que, no momento que se aproximou, presenciou o fim. Cada expiração tirava mundo de dentro dela. Cada inspiração enchia ela de ar. Até que a última foi fatal. Ficou cheia e oca ao mesmo tempo. Preenchida de nada.
Colocou a roupa amarrotada e saiu como em um dia qualquer. Mas aquele não era um dia qualquer. Era caso de morte. Hoje, ela se vestiu para morrer.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Tchau

Todos os dias passo embaixo da sua janela. Não grito, não paro, não chamo, não jogo nada. Só passo.
Tomei esse hábito desde que a gente parou de se falar. Passei a falar com as migalhas de pão que você deixa cair pelo caminho. Passei a falar com o papel de chiclete que você comeu e jogou no meio-fio. Não ouço mais a sua voz, mas ouço os pássaros cantando na árvore em frente a sua casa e deixo eles falarem por mim. Já conheço todos por nome. Eles também me reconhecem. Aposto que comentam entre si que eu estou chegando.
Por quê você não chega na janela? Por quê você não resolve olhar na hora em que eu passo? Talvez você nem saiba que eu faço isso. Talvez você nem repare nas coisas que eu deixo pra você. Outro dia deixei uma história encostada naquele banco que a gente costumava sentar. Já deixei também aquela flor que você adorava pegar quando passávamos pela rua de trás.
Todos os dias passo embaixo da sua janela. Meu GPS tem rota única, qualquer caminho sempre me leva à você. Agora deixa eu ir embora. Eu sei que você vai estar me esperando. Só você é quem não sabe. Amanhã eu volto. Tchau.