sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Quando a mulher é mais bonita

  Existe um engano muito comum na maioria das mulheres, que é o de achar que a beleza nasce do esforço. Minhas caras, não se enganem. Equivocadas, entopem a cara e os poros com pós importados, que fazem companhia para outros tantos pós multicoloridos. No final, parecem vir de alguma peça de teatro Kabuki. Parem com essa ideia de achar que uma calça que sufoca as pernas e começa a nascer embaixo do cóccix é a realização da sensualidade. Não é!
   A beleza não mora no pó, no lápis, no batom e nem em coisa alguma desse tipo. A sensualidade não se fortalece em decotes extravagantes ou calças de cintura tão baixa que chega a mostrar até um ou outro pelo púbico. A beleza feminina não está aí.
   A mulher não é mais bonita quando coloca brincos enormes, salto alto e uma saia presa com cinto que quase beira o pescoço. Não é isso que faz a mulher mais bela.
   O que faz de vocês, mulheres, mais belas, é exatamente o oposto disso tudo. Não é o quanto se arrumam, mas o que deixam de fazer. A mulher é mais bonita quando usa calça jeans e uma blusa branca. A mulher é mais bonita quando prende o cabelo quando faz calor e deixa escorrer o suor pelo pescoço. A mulher é mais bonita quando ri de um jeito diferente e expõe seu pescoço. Poucas coisas são mais sensuais do que expor o pescoço enquanto o dedo passa pelo cabelo.
   Sinto pena daquelas mulheres que perambulam completamente enfeitadas, andando por aí feito árvores de natal. Mulheres, embora as revistas e programas de televisão queiram convencer-lhes disso, a beleza não existe no que se faz para parecer bonita.
   A beleza não mora na roupa cara, na maquiagem cara e nem no sapato caro. A mulher é mais bonita quando conta uma piada para os seus amigos. A mulher é mais bonita quando é carinhosa com quem não se espera que ela seja. A mulher é mais bonita quando é educada e sabe pedir a conta para o garçom sem parecer deselegante.
   A mulher é muito mais bonita quando não se acha bonita. E usa aquela blusa velha na sua frente, sem ficar com medo do que você vai pensar dela. 
  A mulher é mais bonita quando sua beleza não vem do que ela carrega em si, mas consigo. A mulher é linda quando sua beleza transborda de dentro para fora. Porque a beleza, mulheres, mora na despretensão.
                                                          Foto: Geoffroy Demarquet

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Miniconto da porcelana

A boneca do pote de vidro jamais saiu de seu mundinho de porcelana.
E preferiu a vida desgraçada daqueles que só se levantam com o pé direito. Sua vida miserável a confortava. E branca, pálida e fria, como o mármore, morreu feliz e enganada, como todas as bonecas.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Não perco essa mania

Eu pensei em voltar a sua rua, bater na porta e dizer que estava arrependido. Pensei em deixar o orgulho de um lado, a vergonha do outro e tocar a campainha como se começasse agora. Assim mesmo eu te convidaria, para começar tudo agora. Não é questão de voltar atrás, nem de persistir no erro. Acontece que pensei em você semana passada. E na outra também.
Na verdade, penso em você quase que todos os dias e por isso pensei em voltar e te contar isso. Não sei se adiantaria alguma coisa, já que ouvi dizer que você não quer nem ouvir meu nome. Outro dia fingi que te ligava por engano, só para ouvir você dizer que eu não perco essa mania de te procurar. Você não atendeu e eu percebi que devo gostar de perder meu tempo com você.
Se eu pedisse para alguém lhe interfonar, dizendo que esperava aqui embaixo, será que você desceria? Quase joguei uma pedra na janela do seu quarto. Será que te acertaria o coração? Pensei que você pudesse abrir a porta e me servir alguma coisa. Pensei em, quem sabe, pegar a sua mão e te fazer lembrar de como você ficava quando eu fazia isso antes. E se, de repente, eu fosse entrar na sua casa? E se, por acaso, eu não saísse mais da sua vida?

sábado, 20 de novembro de 2010

Vivendo - e morrendo - segundo as regras... gramaticais!

Paulo era um sujeito simples, nada diferente desses que se encontram em qualquer esquina. Embora aparentasse, porém, não era nem de perto esses comuns. Era substantivo próprio de si e de suas vontades. Não deixava nenhuma no final da frase.
Até que um dia encontrou Maria Elisa. E não tardou para o sujeito se transformar. Viu a moça uma ou duas vezes e foi o suficiente para se render aos seus predicativos. Mudou de número, de grau e desde então, só pensava em ser composto ao lado dela. Mudou até de lugar, procurando seu espaço na oração de Maria Elisa. Mas ele não era bobo e foi logo montando a cena. 'Eu, tu e toda a felicidade do mundo' foi o que propôs a moça sem nem saber se ela tinha ou não complemento. Pobre do Paulo de pensar que aquela morfologia toda não teria já alguém que a classificasse.
Aludiu, citou e até definiu, mas nada era capaz de despertar a feição da moça. Maria Elisa não era dessas preposições que se engraçam com qualquer sujeito não. E Paulo, só não mudou de gênero porque era dessas regras que não admitia exceção. Botava uma coisa na cabeça e ia até o sufixo da questão.
Sem conseguir por força de suas próprias derivações, nosso amigo, que nunca foi subordinado, prestou-se a fazer algumas orações. Pensava que 'se Ele existe mesmo, vai me conceder a graça de Maria'. Mas não teve efeito algum, afinal, Maria Elisa já tinha seu sujeito oculto – que Paulo, sem nem conhecer, já considerava-o bastante indeterminado.
E quase cheio de suas próprias tentativas, falou com a tal da Elisa num tom oblíquo que só ele conseguia. Cansado de enrolação, foi até ela para colocar um ponto final – ou reticências, já que dependia da vontade da mocinha. Disse que não era de se abater por qualquer conjugação, mas não suportava a ideia de viver um amor coletivo. E mandou ela decidir: eu, contigo, ou tu, sem ninguém?
Curiosa a história de Paulo. Ele nunca foi dessas abstrações de amor, mas depois de Maria Elisa, não pensava em uma só coisa concreta. E foi por isso, também, o seu fim. Depois de colocar exclamação na vida da pobre moça, resolveu, também, terminar a própria história.
Armou-se da coragem dos artigos definidos e com um desses objetos indiretos, morreu. Intransitivo que só ele.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Mar e Cela

Já cruzei outros oceanos
Noutras embarcações até bem melhores do que esta
Mas agora é diferente
Pareço atravessar uma arrebentação inteira
Num barquinho desses de papel
Teu mar é minha cela
Me prendi na tua correnteza

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Velho como um fusca

Não quero morrer velho de espírito jovem. Não quero me poupar de nada. Quero rir toda vez que minha barriga quiser doer e chorar toda vez que tiver vontade. Não quero me preservar de desgaste.
Quero destruir todas as amizades que forem precisas para descobrir todos os casos de amor que possam estar escondidos nelas. Não quero evitar nada.
Não quero me acostumar com o sofrimento das pessoas. Nem com o mau-humor de ninguém. Quero viver amando e me decepcionando. Quero todas as decepções que eu puder ter. E que cada decepção não diminua, mas reerga meu amor.
Quero aprender tudo que eu conseguir. E ter a certeza de que cada aprendizado novo me abrirá uma infinidade de outros tantos, que eu também desejarei aprender. Não quero me privar de nenhum desejo.
Não quero chegar velho sem arranhão na lataria. Quero velhice com amassado, banco rasgado e sem estofamento.
Não quero morrer velho de espírito jovem. Quero morrer um fusca bem antigo, com a porta empenada. Que cada batida defina a nova sinfonia. Quero dançar ao som da orquestra de uma porta empenada. E tropeçar todas as vezes que minhas pernas enroscarem nas tuas.
Quero morrer um fusca velho. E com a alma calejada.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Mudo

Se calado come-se duas vezes
E se esteve certo quem contou
Divina benção é não falar
E aproveitar o amor que não se espalhou.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Não demora

Seja aonde estiver, que chegue logo. Não precisa pensar duas vezes, não fique deduzindo o que é certo ou errado, apenas venha. Venha que não me aguento de esperar. Já sinto teu cheiro de longe, como bolo posto na janela e que faz cheirar em todo o quarteirão. Vem logo, que eu quero te mostrar uma música que eu descobri. Não demora.
Esqueça o que passou. Se vai ou não ficar alguma coisa pelo caminho. Se existe ou não alguém que você terá que deixar para vir. Não importa. Faça o que for preciso. Mas venha. Rápido. Quero dividir a vida.
Quero brigar pela porção de fritas, pela Coca-Cola que está no fim, pelo chocolate que você ganhou na páscoa, pelo filme que vamos alugar. Quero lhe contar o meu dia, ouvir o seu e te segurar pelo braço quando você atravessar o sinal sem perceber que ele está aberto. Quero te segurar para sempre.
Quero ter dúvidas, mas não suportaria viver só imaginando como teria sido se você estivesse aqui. Você é minha única certeza. Então venha, a hora que for. Venha que eu estou esperando.

domingo, 24 de outubro de 2010

Considerações finais

Detesto despedida porque gosto de estar junto, de falar perto, de puxar a cadeira e já ir me sentando. Detesto despedida que me força a estar longe do que quero. Ou melhor, de que não quero estar longe. Despedidas colocam entre mim e o outro um muro chamado distância. Alto. Imponente. Quase que impenetrável.
Detesto despedida porque preciso da voz. Não me perdoo quando esqueço uma. O sentir da boca desenrolando o som no ouvido é algo que eu quero e preciso, sempre.
Odeio despedida quando sou eu quem me despeço. Aliás, em toda despedida, a gente sempre acaba tendo que se despedir mesmo, sejamos nós os que partimos ou não.
Detesto despedida, principalmente, quando não consigo dizer tudo que gostaria. Odeio despedida que me deixa arrependido depois. Odeio despedida que não me tira todas as palavras. Se é para ir, que vá. Mas que vá com tudo que eu precisava deixar.
Detesto despedida que não me pede rescisão de contrato. Aquelas que vão como se não tivessem nada para dividir. Odeio despedida que me cobra a prazo. Detesto despedida que parece indiferente. Odeio despedida que não parece o fim.
Detesto despedida porque não gosto de estar longe. Odeio despedida porque gosto de você.

sábado, 23 de outubro de 2010

Mania de cozinheiro apressado

Sou ansioso com texto. Basta começar um e já fico afoito pelo final. Não pode ser qualquer desfecho. Não me contento com qualquer história. Imagino um texto como um um prato. Torná-lo bom ou não é ofício do cozinheiro. Selecionar os ingredientes, misturar no momento certo, para, no final, fazer tudo ficar saboroso, não é trabalho fácil. Nenhum trabalho é fácil. Um prato bem feito, assim como o texto, são ambos irresistíveis. Difícil é torna-lo assim. Difícil é fazer um texto que te devora pelo olho. É ele quem te convida a comer.
Na arte da gastronomia, sou um irremediável amador. Meu prato nunca fica com o gosto que eu queria. E basta tornar a olhar, para querer mudar o tempero. Botar um pouco de sal aqui. Deixar um pouco mais doce. Misturar com um tanto de limão. Refazer tudo.
Busca interminável pela satisfação, acabo servindo do jeito está. Não me permito alterações. Sou ansioso com texto.
Mania de cozinheiro apressado, não consigo esperar sair do forno. Sirvo sempre cru. Ou passado demais. Jamais cheguei ao ponto.