domingo, 5 de julho de 2009

Carlos, o taxista.

Ele entra naquele carro como se entrasse na vida agora. Abre a porta com firmeza e a fecha com mais firmeza ainda. Algo o estava incomodando.
- Mas o que houve seu moço, parece tão apreensivo... diz o motorista
- Estou nervoso, muito nervoso, mais nervoso do que outrora já tenha ficado na vida.

Suando, com as mãos em cima dos joelhos que não paravam de balançar, ele não estava mesmo muito bem. Talvez tivesse terminado o casamento, mas era muito moço para estar casado, pensou o motorista.
- E o que é que o senhor tem afinal?
- Você não entenderia se eu contasse.

Já esperando o pior, o motorista tenta se lembrar do noticiário da noite anterior. De repente aquele homem ali do lado era alguém procurado pela polícia. Ou então algum golpista famoso que não fosse nem pagar a corrida.
- Ora, mas se o senhor não quer contar, eu respeito, afinal a vontade do cliente sempre prevalece, não é mesmo?
Sem responder ou emitir palavra, o homem balança a cabeça como se concordasse com aquilo que o outro lhe falava.
- Mas me diga então, para onde nós vamos?
- Eu não sei.
- Como assim não sabe? Você entra no táxi e não sabe para onde vai?
- Não! É esse o motivo da minha aflição!
- Ora, e para onde eu vou?
- É isso que eu me pergunto, amigo: Para onde eu vou?
- Você pode ir para onde quiser, desde que me diga antes e que tenha dinheiro pra pagar a corrida... brincou o taxista
- Mas eu não sei para onde ir.

Quando ele pensa encostar o carro no cantinho da rua e vai diminuindo a velocidade, o homem diz:
- Queria só pedir pra você não encostar.
- Por quê? Quem diabos é você? Não sabe pra onde quer ir mas não quer que pare. Você é algum bandido procurado? Está fugindo da polícia? Olha companheiro, queria te dizer que eu sou pai de família, tenho duas meninas em casa me esperando, se você quiser levar meu dinheiro, leva, meu táxi, leva, só, por favor, não faça nada comigo!
- Calma, eu não sou nenhum bandido e nem quero te roubar. Eu só quero achar um lugar pra ir, e quando você encosta, dá impressão que eu já cheguei.
- Eu não posso ficar aqui o dia todo com você. Ou você se decide para onde ir ou desce do meu táxi, por favor.
- Você não pode me dizer algum lugar pra ir?
Sem ter muito o que dizer, Carlos vai pelo óbvio:
- Ora, eu nem lhe conheço. Você não tem família?
- Não.
- Desde quando você não sabe para onde ir?
- Desde o momento que eu entrei aqui.

Carlos se vira e olha a cara do sujeito de perfil. Algo nele desperta a simpatia do taxista.
- Rapaz, gostei de você, sabia? Essa tua confusão até que é bem divertida. Você tá com fome?
- Estou!
- Já que não tem lugar nenhum pra ir, aceita me acompanhar até a lanchonete ali do próximo quarteirão? Está na hora do meu almoço e o sanduíche ali é muito bom. Quem sabe lá conversando você não escolha algum lugar para ir?
- Seria ótimo.
Carlos para na porta da lanchonete e vai desligando o carro as poucos.
- Vai saindo!
Pede para o homem.
O homem sai como se tivesse renascido. Não sabia ele que havia encontrado o melhor amigo de sua vida.

2 comentários:

Emanuella disse...

ahahha, adoreei, que história divertida!Isso mostra cada vez mais que não existe limitações quando se fala de amizade.

beeijos ;*

oton disse...

bagulho doido rapá... mas eu gostei, gosto dessas historinhas, ainda mais quando são bem escritas.