sábado, 20 de fevereiro de 2010

Botão

 Corria pela rua como se nada mais importasse. Os rostos passavam tão rapidamente que já era impossível reconhecer alguém. Rua cheia, esbarrava nas pessoas, tropeçava nas próprias pernas. Pisou na poça, molhou o sapato, sujou a calça, mas isso já não importava. Correu muito, não se sabe por quanto tempo, nem por que. Tudo que se sabe é que deu a noite e ele parou. Assim, sem explicação. A lua reinou e ele parou. Sentou. E começou a chorar. Estava numa rua escura, ora por ser noite, ora pela luz estar fraca. Não passava uma só pessoa para perguntar quem era aquele homem e por que correra tanto para ficar ali, estático, chorando, no chão.
 Enquanto chorava, o homem ia desabotoando a camisa e à medida que tirava, cada botão, era como se tirasse um pouco de sua vida. Um botão era a infância castigada. Outro a juventude transviada. E por último, era a vida miserável que levava agora. Despia-se da roupa e de tudo que fazia-lhe mal. Até que tirou os sapatos, a meia e por fim, ficou nú. Deitou-se no asfalto frio e a desgraça tirava-lhe o pudor. Adormeceu. Enquanto dormia, a morte beijou-lhe a face e seu coração de tanto bater acelerado, parou. "Que alívio!" pensou ele.  ­Depois de morto conheceu a vida. Agora, ele era mais feliz.

Um comentário:

Clara Melo disse...

Eu gosto muito de quando você fala na primeira pessoa, contando do seu dia-a-dia, gosto absurdamente das suas crônicas que são quase como diário, mas quando é conto, você também arrasa.

Ykezito, meu tesão, meu blog (e meu orkut, msn e formspring) foram hackeados, esse é meu blog novo!