segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Sobre dizer silêncios

Hoje senti uma felicidade perigosa e achei por demais conveniente vir aqui lhe escrever.  Eu não sei bem como começar e nem o que dizer, pois o que eu queria mesmo, na verdade, é te dizer sem falar nada. Será que isso é possível? Deu vontade de falar um monte, de como eu me sinto, de como eu te gosto, de como a gente se dá bem, mas achei que escrever isso tudo faria com que o mistério perdesse um pouco da magia. E essa é a última coisa que eu quero que você sinta nestas linhas: falta da magia.
Podem não ser as mais bonitas que você já tenha lido, nem as com as melhores palavras ou as que mais respeitem a concordância gramatical, mas tenha certeza de que foram as primeiras que vieram e isso, meu bem, merece um pouco de consideração. Fui deixando vir e passando direto para cá, sem editar palavra alguma, sem ajeitar vírgula depois, sem procurar sinônimo no dicionário, pois eu sei que a vida já é muito romanceada e pelo menos na ficção eu espero um pouco de realidade.
Espero que me perdoe o desatino de lhe escrever esse começo descomeçado e com essa pretensão toda de lhe falar pelo incomunicável sentimento que gerou as palavras. Se você lesse e me perguntasse depois o que eu pretendi, responderia exatamente isso: pretendi te guiar pelo que antecede a palavra.
Pense num lindo jardim, com todo tipo de flores e cheiros, incluindo as que você mais gosta. Imagine que dessa imensidão verde-roxa-avermelhada, é possível ver uma de aparência estranha, que não nos mostra direito se está brotando ou se pondo. Pois bem, você foi até ela e, quando inspirou, sentiu um cheiro único, que nunca havia vivenciado antes. Agora você está a me contar essa experiência, mas tentando me falar não do que você sentiu com o cheiro, mas do que antecede a sua sensação do cheiro, que é, senão, o cheiro em si. Entende? Essa é a minha vontade, mas eu reconheço que a esta altura esteja confundindo até a mim. Isso é um tanto por conta do nosso acordo lá no início, que foi o de deixar as palavras escapulirem pelo vento, sem botar tela na janela. Escrever assim, com uma letra puxando a outra pela mão.
Movido por tanto sentimento, podia ter sido um texto mais bonito, você dirá. E eu reconheço. Mas nem tudo que eu quis lhe dizer está aí escrito e eu espero, ansiosamente, que você saiba ler as entrelinhas. Tudo que eu pude escrever, eu escrevi. Depois do ponto final, ainda haverá texto. Será que você vai saber me enxergar depois da curva? Pois bem, até breve. Vou escrever silêncios agora.
Les Coquelicots à Argenteuil - Claude Monet

2 comentários:

George Luis disse...

Boa escolha da imagem. Imagino o autor lá naquela casa lá no fundo da imagem, olhando para a moça que está no jardim, andando ... E ele querendo dizer tantas coisas a ela, mas o tempo o fez calar.

Lorena Weasley* disse...

Adoro essa coisa de "quero falar mas não quero". As palavras mais verdadeiras vêem daí.